terça-feira, 22 de março de 2011

Warming up... Sobre o sopro inocente (= innocent murmur)

Bom, como vocês sabem, o trabalho médico é, essencialmente, cuidar de pacientes, não é mesmo?
Portanto, muitos dos meus posts terão um conteúdo, vamos assim dizer, mais didádico. Especialmente para mim, partindo do pressuposto que quando compartilho, também aprendo e reflito sobre minha prática diária.

Os casos são super fontes de "inspiração" pro meu estudo... Sinto que a palavra "crua" ainda cabe bem nesse meu contexto atual (quem sabe, um dia, chego "ao ponto" - ouço até o o grito do churrasqueiro, rs) e, por isso, nunca estudei tanto assim na vida!

No entanto, essa era uma dúvida bastante corriqueira durante a residência, mas nunca tive a proatividade de resolvê-la by myself.

Então, fica aqui meu pequeno protocolo sobre sopros inocentes:
1) Anamnese:
* no pequetito >> cianose, cansaço às mamadas, sintomas respiratórios e "failure to thrive".
* na criança maior >> parecido com adulto (dor no peito, falta de ar, síncope e história familiar positiva para morte súbita)

2) Exame físico:
>> Palpação precordial: se atividade precordial "uuull", suspeitar de aumento de VD. E, quem sabe, você até não sente um thrill (cá prá nós, muito mais legal que frêmito...).

>> Palpação dos pulsos: verificar simultaneidade dos pulsos femorais com os braquiais. Isso é para excluir coarctação da aorta (sobre fisiopatologias, consulte Guyton... rsrs!)

>> Bulhas: que lindas! Mas limite-se a saber que pode haver problema com a S1 só quando está abafada (normalmente, o som único, então Ok...). No entanto, passe a dar mais valor a S2! Novamente, não vou me ater a detalhes fisiopatógicos, mas ela é bem conhecida da semiologia cardíaca. Vai a dica: o desdobramento de S2 fixo e amplo (ou seja, não varia com a respiração) merece um "ooops" (de alteração de defeito do septo atrial). Se for único e alto, pode indicar hipertensão de artéria pulmonar.

>> Clicks: não me atrevo. (triste, mas verdade...).

>> Sopros: lembrar da graduação (1 a 6, lembrando que acima de 3 - com frêmito - é sempre patológico).  Sistólicos ou diastólicos (= patológicos também). Aí vem, holossistólicos, crescendo/decrescendo, etc...

No fim, o que ficou de bom: o lugar onde ele é mais intenso (então, vale a pena escutar nos 4 áreas cardíacas principais) e a variação do sopro de acordo com a posição (melhor dica do ano >> o sopro não modifica na alteração do septo atrial quando a criança está de pé!). Na cardiomiopatia hipertrófica (condição rara) ele aumenta. No sopro de Still há uma diminuição do sopro quando ela está de pé.

>> "Venous hums": não soube traduzir isso. É a passagem do sangue venoso da cabeça e nuca para o tórax. Mas é muito legal. Num primeiro momento, vc acha que é um sopro diastólico. Aí, vc pressiona a jugular ou vira a cabecinha do garoto e, pronto, no more sopros. Fiquei feliz em saber.

Considerações finais: o artigo relata que o principal diagnóstico diferencial (=DD) para o sopro inocente é o defeito do septo atrial (por isso, tanta fixação por ele). O resto dos sopros são tão "toscos" que vc vai referenciar na hora ou a criança já está em acompanhamento (assim esperamos!).

O artigo: http://www.aafp.org/afp/990800ap/558.html

Fica aí, então, meu primeiro estratagema (existe?).
Depois tem mais! Inté!

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