Sinto, hoje, um pouco cansada por ter escolhido a Medicina de Família como especialidade, ou melhor, o jeito como passo a maior parte do meu dia, ou seja, meu estilo de vida.
Poderia muito bem dar plantões em hospitais e ligar o botão do "piiiii" para o que acontecesse com os pacientes no dia seguinte. Poderia também dar plantõeszinhos em centros de saúde (modalidade inédita de atendimento aqui da cidade), que seriam 18 pacientes por turno. Poderia não me preocupar mais com a glicemia capilar do seu José de 503 hoje de manhã. Nem me preocupar com todas as senhorinhas que foram parar no PA depois que fiz suas VDs (porque elas não me procuram antes de ir do PA?)
Escolher a MF pressupõe uma constante indignição com o sistema. Com o jeito que as pessoas são tratadas e, especialmente, como se acostumaram a ser tratadas. Como seria mais fácil renovar receitas, pedir mil exames, não me indispor com a secretária, não ficar 7 minutos tentando explicar como o diazepam pode prejudicar sua vida.
Hoje foi difícil: muitas faltas, muitas notícias ruins de pacientes, muita energia pesada... Claro, há alguns pacientes que retornam, aderem, se co-responsabilizam. Mas, ainda é a minoria.
Estou aqui há 2 meses... Não sei se estou progredindo ou não. Gostaria de saber se essa luta pelo que acredito vai valer a pena.